sábado, 23 de março de 2013
Cenas Bestiais dos Lizzie Bennet Diaries
O semestre passado, enquanto devia estar a estudar o tamanho desejável das bolhas de gás na cerveja (literalmente), estive a ver em catadupa os Lizzie Bennet Diaries, a pensar "meh!" e a clicar no próximo. Passado algum tempo de maturação, comecei a achar alguns pontos bastante inteligentes (para além do anúncio do "anda barrinha, que o senhor quer ver o vídeo".
Candura Técnica
Os livros técnicos têm uma candura, simplicidade insuperável:
People prone to obesity, calorie conscious people, and those suffering from certain forms of illness such as diabetes, are limited in their intake of chocolate and confectionery. In order that they shall not be deprived of these attractive foods a number of modified confections have created.Eu, que fui contaminada com sarcasmos até um ponto terminal, li esta passagem com todos os tipos de ênfase maldoso. E, independentemente de mim ou da triste chico-espertice opiniosa de quem quer que seja, o texto mantém-se impassível, com a bondade da realidade.
Ironia
Também vi "Becoming Jane" no Hollywood. Senti-o como uma espécie de dejá-vu perdido de "Orgulho e Preconceito", cujas cenas tivessem sido baralhadas. Esperei que Austen tivesse dito isto, mas não disse. Isto faz a frase quase orfã, quase sem autor.
Afinal o meu problema era a falta de autoridade das citações, ainda mais quando eu esperava tê-la. Uma era um dos pontos de poeira adicionados no remake de um filme clássico, outro é uma frase solta que podia ter sido dito por uma autora, mas apenas lhe foi adicionada por um argumentista de que nunca saberia o nome.
Afinal o meu problema era a falta de autoridade das citações, ainda mais quando eu esperava tê-la. Uma era um dos pontos de poeira adicionados no remake de um filme clássico, outro é uma frase solta que podia ter sido dito por uma autora, mas apenas lhe foi adicionada por um argumentista de que nunca saberia o nome.
Irony is the bringing together of contradictory truths. To make out of the contradiction a new truth with a laugh or a smile (...)
Becoming Jane
Acerca de Caminhar Sozinha
Houve duas citações que há tempos, talvez um ano, foram como uma ilustração caída do céu para os meus sentimentos inexpressáveis. Eu debati-me com elas porque as suas origens eram retorcidas, e por serem obscuras pareciam-me inqualificáveis para apresentar no formato de citação. Quando tento finalmente expô-las, o problema desapareceu e eu já nem consigo compreender exactamente o que era.
"Sabrina" é um remake do filme de 1954, que por ter a Audrey Hepburn seria um clássico muito mais citável. Eu vi o recente no canal Hollywood e fui ver o antigo para retirar do original isto:
"Sabrina" é um remake do filme de 1954, que por ter a Audrey Hepburn seria um clássico muito mais citável. Eu vi o recente no canal Hollywood e fui ver o antigo para retirar do original isto:
You think? I came here from Province alone, uneducated. For 6 months, no, more than that, a year, I sat in a cafe, drank coffee and wrote nonsense in a journal. Then suddenly it was not nonsense. I went for long walks and I met myself in Paris. You seem embarassed by loneliness - but you see, it's only a place to start.
"Sabrina" (1995)
Mas isto não está no original, e como isto há outras coisas mágicas que apareceram por extensão: o pai da Sabrina que é motorista para ter tempo para ler, e o poema:
Sabrina fair,
listen where thou art sitting under the glassy, cool, translucent wave,
in twisted braids of lilies knitting the loose train of thy amber-dropping hair
Linus Larrabee:
[pause] So, your little poem - what does it mean?
Sabrina: It's the story of a water sprite who saved a virgin from a fate worse than death.
Linus Larrabee: And Sabrina's the virgin.
Sabrina: [quietly] Sabrina's the savior.
Sabrina: It's the story of a water sprite who saved a virgin from a fate worse than death.
Linus Larrabee: And Sabrina's the virgin.
Sabrina: [quietly] Sabrina's the savior.
sábado, 9 de março de 2013
De ora em diante, vou apropriar-me da palavra "gaja" para definir mulheres que acreditam que estas (as da treta, as das conversas parolas de café, as propagadas como uma doença) distinções entre homens e mulheres são uma coisa real, como hidrogénio e oxigénio molecular a transformarem-se em água.
Os homem que acreditam no mesmo talvez fiquem homens-gaja.
Os homem que acreditam no mesmo talvez fiquem homens-gaja.
domingo, 3 de março de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
The Smiths têm os melhores títulos de todo o sempre
- A Rush and a Push and the Land is Ours
- Accept Yourself
- Barbarism Begins at Home
- Heaven Knows I'm Miserable Now
- How Soon Is Now?
- I Started Something I Couldn't Finish
- Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me
- Never Had No One Ever
- Nowhere Fast
- Paint A Vulgar Picture
- Please, Please, Please, Let Me Get What I Want
- Shoplifters Of The World Unite
- Stop Me If You Think You've Heard This One Before
- That Joke Isn't Funny Anymore
- Vicar In A Tutu
- What's The World
- Work Is A Four Letter Word
sábado, 5 de janeiro de 2013
E se eu criasse três alter-egos procrastinadores?
There's more than one flavor of procrastination. People
procrastinate for different reasons. Dr. Ferrari identifies three basic
types of procrastinators:
- arousal types, or thrill-seekers, who wait to the last minute for the euphoric rush.
- avoiders, who may be avoiding fear of failure or even fear of success, but in either case are very concerned with what others think of them; they would rather have others think they lack effort than ability.
- decisional procrastinators, who cannot make a decision. Not making a decision absolves procrastinators of responsibility for the outcome of events.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Exame dentro de 30 e tais horas
Colei pela segunda vez a parte do porta-moedas da minha carteira. A Misako está em saldos a menos de dez minutos de minha casa. Eu passei a tarde inteira a tentar chegar aos 15 dólares no Goodsearch.
As questões pertinentes são:
As questões pertinentes são:
- Quem é que eu estou a tentar enganar, para além de mim mesma?
- Porque é que eu estou a tentar enganar alguém, para além de mim mesma?
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
i
But think of Adam and Eve like an imaginary number, like the square root of minus one: you can never see any concrete proof that it exists, but if you include it in your equations, you can calculate all manner of things that couldn't be imagined without it.
"Northern Lights", Philip Pullman
sábado, 15 de dezembro de 2012
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
A Hilariante Passagem em Que Uma Personagem de Eça de Queirós Vira Uma Floribella Homicida
Rondando então em torno à árvore de espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, diz! És tu uma relíquia divina com poderes sobrenaturais - ou és apenas um arbusto grotesco com um nome latino nas classificações de Lineu? Fala! Tens tu, como aquele cuja cabeça coroaste por escárnio, o dom de sarar? Vê lá... Se te levo comigo para um lindo oratório português, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chama louvadoura das velas, os respeito das mãos postas, todas as carícias da oração - não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existência estorvadora, me prives da rápida da rápida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de ideias pueris de caridade e misericórdia, e vai com tenção de curar a titi - então fica-te aí, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silêncio eterno!... Mas se prometes permanecer surdo às preces da titi, comportar-te como um pobre galho seco e sem influência, e não interromperes a apetecida decomposição dos seus tecidos- então vai ter em Lisboa o macio agasalho de uma capela afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um ídolo, e eu hei-de cercar-te de tanta adoração que não hás-de invejar o Deus que os teus espinhos feriram... Fala, monstro!»
O monstro não falou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com a consolante fresquidão da brisa de Estio, o pressentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A árvore de espinho mandava, pela comunicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquele palpite suave da morte da Sra. D. Patrocínio - como uma promessa suficiente de que, transportado para o oratório, nenhum dos seus galhos impediria que o fígado dessa hedionda senhora inchasse e se desfizesse... E isto foi, entre nós, nesse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.
Mas era esta realmente a árvore de espinhos? A rapidez da sua condescendência fazia-me suspeitar da excelência da sua divindade. Resolvi consultar o sólido, sapientíssimo Topsius.
"A Relíquia", de Eça de Queiroz
sábado, 27 de outubro de 2012
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Textos colados (devidamente assinalados por tipos de letra)
Há meio mês escrevia a dizer que fazia um mês que tinha deixado de escrever o diário que mantinha, entre vários cadernos, há 11 anos. A quantidade de datas na frase anterior é como um espelho da minha boa pessoa. Escrevia a congratular-me: para além da preguiça de arranjar outro caderno, manter um diário tinha deixado de ser uma terapia, porque eu, a obcecada da nostalgia e memória, já não me conseguia lembrar das conclusões que tinha tirado na semana anterior sobre os vários factores de insatisfação na minha insatisfatória vidinha. O efeito prático era um bater com a cabeça na parede contínuo, sempre a concluir capitalmente que ia mandar passear x, y e o z também e usar a minha própria cabeça. Embora esta conclusão sobre as conclusões estivesse certa, o sentimento estava todo errado.
Sem surpresas. Praticamente tudo o que fiz nestes dois anos de hiato está tudo errado. E nem assim consigo ter a coragem atirar os atravancos às urtigas.
O problema de toda a minha análise introspectiva é que foi uma análise destrutiva. Não resta nada de mim.
Quando a minha alma começou a ser sugada pelo tumblr, eu tinha dois tumbleblogs meus: um como uma espécie de "colecção" de espécimes exemplares das minhas obsessões, outro como um caderno de recortes de coisas que me tinham surpreendido. Arrumei e fechei o tumbleblog secundário, porque os conteúdos não eram o tipo de coisa que eu costumasse publicar, e achava que a pouca diferença entre ter o tumbeblog e a minha lista de "likes" não justificava a sua existência.
Agora sinto a sua falta, tantas vezes. Que mantive a minha colecção interna de coisas que me interessavam tão segura e asséptica, e agora toda essa decoração interna me aborrece ou já a lancei janela fora.
Sem surpresas. Praticamente tudo o que fiz nestes dois anos de hiato está tudo errado. E nem assim consigo ter a coragem atirar os atravancos às urtigas.
O problema de toda a minha análise introspectiva é que foi uma análise destrutiva. Não resta nada de mim.
There are two general types of detectors: destructive and non-destructive. The destructive detectors perform continuous transformation of the column effluent (burning, evaporation or mixing with reagents) with subsequent measurement of some physical property of the resulting material (plasma, aerosol or reaction mixture). The non-destructive detectors are directly measuring some property of the column effluent (for example UV absorption) and thus affords for the further analyte recovery. (X)
Preciso de uma personalidade-manta.
Agora sinto a sua falta, tantas vezes. Que mantive a minha colecção interna de coisas que me interessavam tão segura e asséptica, e agora toda essa decoração interna me aborrece ou já a lancei janela fora.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Casas e Quartos
Reblogar, esquece-se isto depois de se tornar um hábito de preguiça*, é uma necessidade para os momentos em que outras pessoas escreveram exactamente o que me ia na alma, que são muito mais felizes do que os momentos em que consigo escrever exactamente o que me vai na alma, com todas as palavras certas e de forma escorreita.
E, já agora, porque isto parece curto, cá fica a minha sabedoria coleccionada ao longo de dois anos:
coisas a verificar quando se aluga um quarto
A grande vantagem desta casa é que ninguém me chateou, nunca. (...) Nunca ninguém me perguntou se já jantei, se já comi, se vou sair, se sair tão tarde não é mau; ninguém comentou os horários, a luz acesa durante tanto tempo, nem me aconselhou a dormir ou a comer ou a falar ou a conviver mais; nem quiseram saber que tipo de relação tenho com os meus amigos, ficando atentos na despedida, a ver onde calhavam os beijos. (X)*O tumblr fez-me muita coisa, mas não me tornou numa viciada do botão reblog. Assumo que para a maioria das pessoas seja um hábito de preguiça, reblog reblog reblog.
E, já agora, porque isto parece curto, cá fica a minha sabedoria coleccionada ao longo de dois anos:
coisas a verificar quando se aluga um quarto
- pressão do chuveiro
- situação de internet/telefone/tvcabo, facilidade da sua eventual colocação
- mobília do quarto (ter em mente que, na verdade, livrar-se da mobília excessiva é mais complicado/exige mais lata do que ir ao ikea/bricomarché/whatever arranjar mais um par de gavetas)
- distância e declives até transportes mais próximos
- distância e declives até supermercados mais próximos
- potencial para barulho do exterior (observando tipo de piso, largueza, tipo de intersecções próximas, papel no trânsito da cidade)
- facilidade de lavar e estender roupa
- mobília do quarto
- especificações do acesso à casa
- distâncias aos pontos de interesse (faculdades) em vez de, ou cumulativamente com, tempos - desconfio da passada alheia, que consegue ser sempre mais afoita que os meus pés enfiados em sapatilhas que perdem sempre os pais e amigos não neuróticos e não sobrecafeínados atrás de mim
- distância e tipo de transportes mais próximos (e distância ao tipo de transporte mais fácil de entender [METRO METRO METRO METRO. comboio, comboio. METRO.])
- situação de internet/telefone/tvcabo
- dimensões do quarto - para mim não significa absolutamente nada, excepto de que o senhorio não teve vergonha de as dizer
- aqueles tópicos do fumar/orientação sexual/idades no mais neutral possível, indicando que casa não é governada por neonazis, esquizofrénicos e pessoas com pretensões paternalistas
- colocar "alugo a menina estudante sossegada" e coisas de género é, opino, o cúmulo da inutilidade - a experiência até agora tem-me mostrado de que, tal como só as pessoas que se atrasam é que se definem como pontuais, só quem tem demasiada liberalidade de espírito é que não pensa duas vezes sobre não estar à altura do sossego doméstico, e as verdadeiras meninas universitárias sossegadas estão em negação quanto ao seu estado sossegado.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Perhaps she should have been totally silent and held her breath, hoping that the fever would run blindly throughout the house unable to find her and then crash out a window to dissipate in the snow. But she was not sure that her indiscretion would not, in the end, serve her well, for she remembered what her father had said about those who bide too much of their time and keep too much counsel. He had told her,” God is not fooled by silence.” He had told her always to have courage, and sometimes to step into the breach.
"Winter's Tale" de Mark Helprin
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